Quatro dias após a aprovação no Senado mexicano, começam a ficar mais claros os efeitos práticos do aumento das tarifas de importação decidido pelo governo de Claudia Sheinbaum. A medida, que entra em vigor no próximo ano, altera a dinâmica comercial do México com países que não possuem acordo amplo de livre comércio — entre eles Brasil, China, Índia e Coreia do Sul — e sinaliza uma guinada mais protecionista da segunda maior economia da América Latina.
Na prática, o México autorizou a elevação de tarifas que variam de 5% a 50% sobre mais de 1.400 produtos. O discurso oficial aponta para o excesso de produtos asiáticos, especialmente chineses, mas o alcance da medida é mais amplo e afeta diretamente exportadores brasileiros.
Impacto direto sobre o Brasil
De acordo com estimativas da Confederação Nacional da Indústria, cerca de 232 produtos brasileiros, que somaram US$ 1,7 bilhão em exportações ao México em 2024, podem ser atingidos pelas novas tarifas. Isso equivale a quase 15% de tudo o que o Brasil vendeu ao país no ano passado.
Os setores mais expostos são automotivo, metalurgia, química, borracha e plástico, além de máquinas e equipamentos. O segmento automotivo concentra o maior risco: responde sozinho por mais da metade do valor potencialmente afetado.
Ainda há incerteza sobre a aplicação das tarifas ao acordo automotivo bilateral em vigor desde 2003, que prevê livre comércio de veículos, autopeças e máquinas agrícolas. As montadoras brasileiras avaliam que o acordo deve ser preservado, mas a falta de clareza nos textos regulatórios tem elevado o grau de cautela do setor.
Foco nos carros chineses — mas não só
Embora o Brasil esteja no radar, o alvo principal da política mexicana é a indústria chinesa. Os veículos produzidos na China enfrentarão tarifas de até 50%, justamente em um momento em que marcas chinesas já detêm cerca de 20% das vendas de automóveis no mercado mexicano.
O governo aposta que o encarecimento das importações asiáticas pode proteger a indústria local e reduzir a dependência externa, mas fabricantes que utilizam insumos importados alertam para o risco de aumento de custos e pressão inflacionária.
Alinhamento geopolítico com os EUA
O movimento do México não acontece no vácuo. A decisão ocorre em meio às negociações comerciais com os Estados Unidos e reforça um alinhamento tácito à estratégia americana de conter a expansão chinesa via barreiras comerciais.
Na prática, o México segue um caminho semelhante ao adotado recentemente pelo Canadá, que também elevou tarifas sobre produtos chineses como carros elétricos, aço e alumínio. O objetivo é reduzir o chamado “transbordo” de exportações chinesas via terceiros países para o mercado americano.
Mudança de postura histórica
Durante décadas, o México foi um dos países mais abertos ao livre comércio no continente, acumulando dezenas de acordos comerciais. A nova política sinaliza uma inflexão importante, especialmente sob um governo de esquerda que passa a priorizar proteção industrial e arrecadação fiscal.
O Ministério das Finanças mexicano estima que as novas tarifas devem gerar cerca de 52 bilhões de pesos extras em receita no próximo ano. Em contrapartida, o país pode enfrentar tensões diplomáticas com parceiros emergentes e retaliações comerciais, especialmente da China, que já criticou oficialmente a medida.