A próxima temporada de soja já tem um protagonista anunciado: o Brasil. Com previsão de colheita recorde de 177,7 milhões de toneladas, a maior em quatro anos, o país se prepara para inundar o mercado global em um momento de fragilidade para os produtores americanos, que amargam preços baixos, queda na demanda e redução de área plantada.
Brasil em expansão
A Conab estima um avanço de 3,7% na área plantada, o maior crescimento desde 2021. Isso significa 1,7 milhão de hectares a mais de soja, um movimento que reforça a posição do Brasil como líder mundial na produção e exportação do grão. O clima tem colaborado até aqui, com chuvas regulares em estados-chave como Mato Grosso, que sozinho responde por quase um terço da colheita nacional.
Mesmo com juros altos e custo elevado de fertilizantes, a equação ainda fecha. No Mato Grosso, o retorno estimado é de mais de R$ 1.100 por hectare, segundo o Imea, o que mantém o otimismo dos produtores — mesmo que o lucro seja 44% menor que o do ano passado.
EUA em dificuldade
Enquanto isso, os Estados Unidos atravessam um cenário bem mais desafiador. O plantio de soja caiu para o menor nível desde 2019, reflexo da preferência dos agricultores pelo milho e do impacto das tensões comerciais com a China. O resultado é uma colheita tímida, preços próximos das mínimas e a ausência de contratos com o principal comprador mundial: Pequim.
A comparação é dura: enquanto o Brasil embarcou 3,6 milhões de toneladas de soja para a China apenas na primeira quinzena de setembro, alta de 68% em relação a 2024, os EUA seguem sem fechar negócios relevantes com o país asiático.
Guerra comercial muda o jogo
A disputa entre Washington e Pequim acelerou a transição da China para o fornecimento brasileiro. O gigante asiático já prioriza o grão nacional e pode, em breve, depender cada vez menos da soja americana. Para analistas, se a safra brasileira for colhida dentro do prazo, exportações poderão começar já em janeiro, reduzindo ainda mais a janela de oportunidade para os EUA.
Oferta global em movimento
As projeções indicam que os EUA devem retomar parte do plantio em 2026, mas até lá o mercado já pode estar em outro patamar. O Instituto da Universidade do Missouri calcula que a semeadura americana volte a crescer para 82,6 milhões de acres, contra 80,9 milhões neste ano.
Mesmo assim, a tendência é clara: com a China mantendo foco no Brasil e outros emergentes, os EUA veem sua fatia no comércio global de soja se reduzir.