Depois de meses de valorização quase ininterrupta, ouro e prata passaram por uma das correções mais fortes dos últimos anos, interrompendo um movimento que já começava a mostrar sinais de excesso.
O ouro chegou a recuar cerca de 8% no pregão, devolvendo o patamar psicológico dos US$ 5.000 por onça, enquanto a prata caiu para abaixo de US$ 100, em uma liquidação que se espalhou também para outros metais. O cobre, que havia renovado máximas históricas recentemente, caiu quase 4% em Londres, após atingir níveis não vistos desde 2008.
A queda marca um ponto de inflexão após um rali impulsionado por uma combinação rara de fatores: receio de enfraquecimento do dólar, incertezas sobre a condução da política monetária americana, tensões geopolíticas persistentes e uma busca intensa por proteção cambial e patrimonial. Só em janeiro, o ouro acumulava alta próxima de 18%, enquanto a prata avançava mais de 40% no ano.
O gatilho imediato da correção foi a reprecificação do dólar, que ganhou força após a confirmação de que Kevin Warsh será indicado para a presidência do Federal Reserve. A sinalização alterou rapidamente as apostas de mercado, enfraquecendo a tese de dólar estruturalmente fraco — um dos pilares centrais da disparada dos metais.
Mas, para muitos analistas, o movimento de queda era apenas uma questão de tempo. A velocidade da alta vinha pressionando modelos de risco, aumentando chamadas de margem e incentivando estratégias de realização de lucro. Indicadores técnicos reforçavam esse alerta: o índice de força relativa do ouro chegou a níveis raramente observados, sugerindo um mercado claramente sobrecomprado.
Além disso, o rali havia sido amplificado por uma forte atuação no mercado de derivativos. A compra agressiva de opções de compra forçou vendedores a se protegerem com posições adicionais no mercado à vista, alimentando um ciclo de alta que passou a se sustentar mais pelo fluxo financeiro do que por fundamentos tradicionais.
Mesmo após o tombo, o desempenho acumulado dos metais segue expressivo. O ouro caminha para um de seus maiores ganhos mensais em mais de quatro décadas, enquanto a prata permanece entre os ativos com melhor performance do ano. Ainda assim, o episódio reforça um padrão conhecido dos mercados: movimentos parabólicos tendem a terminar com ajustes igualmente abruptos.
No curto prazo, o preço passa a assumir o papel central, com fundamentos ficando momentaneamente em segundo plano. A intensidade da correção sugere que parte relevante do mercado estava apenas aguardando um pretexto para reduzir exposição, após uma escalada rápida demais para ser absorvida sem volatilidade.