O ouro voltou a ocupar o centro das atenções nos mercados internacionais. Pela primeira vez na história, o metal ultrapassou a marca de US$ 4.000 por onça, impulsionado por uma combinação rara de fatores: incertezas políticas, desaceleração econômica e a expectativa de novos cortes de juros nos Estados Unidos.
O movimento reflete uma busca generalizada por segurança. Enquanto os investidores se reposicionam em meio ao impasse fiscal americano e à escalada de tensões geopolíticas, o ouro volta a cumprir sua função clássica de ativo de proteção, com uma força que não se via desde o auge da crise financeira global.
Na sessão de quarta-feira, o ouro à vista avançou 1,3%, chegando a US$ 4.034,59, enquanto os contratos futuros negociados em Nova York subiram ao patamar de US$ 4.056,80. A prata acompanhou o movimento e valorizou 2,2%, cotada a US$ 48,85, a poucos centavos do recorde histórico.
Um refúgio que resiste ao tempo
Em 2025, o ouro acumula alta de 54%, superando de longe o desempenho das bolsas globais e até mesmo o avanço do bitcoin.
No ano anterior, a valorização já havia sido de 27%, consolidando uma tendência de longo prazo que combina pressões inflacionárias, instabilidade política e queda nos juros reais.
A ascensão recente é sustentada por um ciclo consistente de compras de bancos centrais, pela fraqueza do dólar e pela ampliação das posições de fundos e ETFs atrelados ao metal.
Mais do que um investimento, o ouro se reafirma como uma reserva de confiança. Em meio à paralisação do governo americano — que já se estende há mais de uma semana —, investidores buscam alternativas menos expostas ao risco político de Washington e à ausência temporária de indicadores econômicos oficiais.
Fed sem bússola e cortes à vista
Com o Federal Reserve temporariamente “às cegas” devido à suspensão dos relatórios de emprego e inflação, os mercados passaram a precificar dois cortes de 25 pontos-base ainda em 2025 — um em outubro e outro em dezembro.
Esse cenário reforça a atratividade do ouro, já que juros mais baixos tendem a reduzir o custo de oportunidade de carregar ativos que não pagam rendimento, como o metal.
Enquanto isso, a turbulência política se espalha por outros polos do poder global. A instabilidade na França, a crise de liderança no Japão e o prolongamento dos conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia ampliam o apetite por proteção.