A produção mundial de petróleo caminha para atingir níveis históricos em 2026, com um excedente estimado em quase 4 milhões de barris por dia — o maior já registrado em um único ano, segundo projeções da Agência Internacional de Energia (AIE). O volume representa um aumento de aproximadamente 18% em relação à estimativa do mês anterior, impulsionado pela retomada de produção da OPEP+ e pelo fortalecimento de países produtores fora do grupo.

O movimento reflete um cenário de oferta crescente e demanda mais moderada. Nos últimos meses, a formação de estoques acelerou para cerca de 1,9 milhão de barris por dia, em parte absorvida pela China. Entretanto, o quadro começa a mudar com o aumento das exportações do Oriente Médio, que já elevam o volume de petróleo transportado para o nível mais alto em anos.

Pressão crescente sobre os preços

Os contratos futuros do petróleo bruto operam próximos a US$ 63 o barril em Londres, acumulando queda de 15% no ano. Mesmo com expectativas de novas desvalorizações, o mercado vem se mostrando mais resiliente do que o previsto anteriormente, devido à composição da oferta. Grande parte do excedente recente ocorre na forma de líquidos de gás natural — utilizados pela indústria petroquímica — e não de petróleo bruto, o que suaviza parcialmente o impacto nos preços.

Ainda assim, o excesso de produção começa a exercer pressão sobre o mercado. O ambiente de tarifas comerciais, a desaceleração da economia global e a transição gradual para veículos elétricos reduzem o ritmo de expansão do consumo. Para este ano e o próximo, a demanda global deve crescer cerca de 700 mil barris por dia, um número modesto diante da média histórica da última década.

América ganha protagonismo

O crescimento da produção fora da OPEP+ deve ser quase o dobro do avanço da demanda, liderado por Estados Unidos, Brasil, Canadá, Guiana e Argentina. Juntos, esses países respondem pela maior parte do incremento previsto de 1,2 milhão de barris por dia no próximo ano — cerca de 200 mil a mais do que o estimado anteriormente pela AIE.

No caso brasileiro, o avanço contínuo da exploração no pré-sal mantém o país entre os protagonistas globais da nova onda de expansão da oferta, ao lado das grandes potências produtoras da América do Norte. A estratégia da OPEP+, por sua vez, segue orientada à retomada de fatias de mercado, com um aumento conjunto próximo de 1 milhão de barris por dia em setembro, liderado pelos grandes produtores do Oriente Médio.

Consequências de um superávit histórico

A AIE estima que o superávit de 2026 será o maior da história, reforçando a tendência de preços mais baixos e desafiando o equilíbrio fiscal de países fortemente dependentes da commodity. O cenário de excesso estrutural também pode afetar o apetite de investimento em novos projetos, sobretudo em regiões de maior custo de extração.

Mesmo com os fatores geopolíticos que tradicionalmente elevam os prêmios de risco do petróleo, as tensões recentes vêm perdendo força, o que reduz o impacto desses eventos sobre as cotações. O resultado é um mercado mais abastecido e com menor espaço para valorizações expressivas no curto prazo.

Em um ambiente de oferta abundante e crescimento global moderado, 2026 tende a marcar um ponto de inflexão no ciclo do petróleo — com impacto direto sobre preços, investimentos e a dinâmica de poder entre as grandes nações produtoras.