A nova leitura da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico indica que a economia mundial está atravessando 2025 com mais força do que muitos analistas previam no início do ano. Mesmo diante da escalada de tarifas comerciais implementadas pelos Estados Unidos, o crescimento global tem mostrado resiliência — e boa parte dessa sustentação vem de um lugar específico: o avanço acelerado da inteligência artificial.
Em seu relatório mais recente, divulgado nesta semana, a entidade revisou para cima as projeções de crescimento dos Estados Unidos e da zona do euro para este ano e o próximo. Economias grandes como Japão, Coreia do Sul e Reino Unido também ganharam ajustes marginais positivos.
Apesar do tom otimista, a OECD ainda projeta que o crescimento global desacelere de 3,2% em 2025 para 2,9% em 2026, cenário influenciado pelos impactos completos das tarifas, que tendem a aparecer com maior intensidade nos próximos trimestres.
Comércio esfria, mas impacto total das tarifas ainda não chegou
No diagnóstico da OECD, o comércio mundial perdeu fôlego no segundo trimestre e deve continuar desacelerando, à medida que tarifas mais altas elevam preços de bens importados e reduzem o apetite de consumo e investimento.
O secretário-geral Mathias Cormann afirmou que a economia global tem se mostrado mais resistente do que o esperado, mas alertou que a moderação no fluxo de comércio já é perceptível. O efeito completo, no entanto, tende a ser gradual, com famílias e empresas absorvendo aumentos de preços ao longo do tempo.
A leitura marca um contraste com previsões feitas no meio do ano, quando a OCDE esperava uma perda mais brusca de força na atividade americana. Agora, estima crescimento de 2% para os EUA em 2025 — bem acima da projeção anterior de 1,6%.
O fator IA: data centers e equipamentos puxam atividade
Um dos pontos centrais da revisão é o impacto do ciclo de investimentos em inteligência artificial. A construção de data centers, a compra de servidores avançados e a corrida por infraestrutura energética estão se tornando componentes essenciais do crescimento de países desenvolvidos.
A OCDE calcula que, sem esse impulso tecnológico, a economia americana teria apresentado retração de 0,1% no primeiro semestre, já que o consumo das famílias perdeu força e os gastos do governo recuaram. A IA, portanto, serviu como amortecedor num momento de maior incerteza.
O fenômeno, segundo a entidade, também ajudou a manter vivo o comércio internacional: fluxos relacionados a semicondutores, hardware e serviços tecnológicos crescem em ritmo muito superior ao restante da indústria.
Riscos: valuations esticados e volatilidade à vista
O relatório, porém, traz um alerta claro. A rápida expansão do setor tecnológico e a euforia em torno da IA estão criando um ambiente de valuations mais esticados. A OCDE afirma que esse movimento aumenta o risco de correções abruptas, especialmente se houver mudanças inesperadas nas condições financeiras globais.
Outro ponto de atenção é a imprevisibilidade das novas medidas comerciais. A escalada tarifária, mesmo que absorvida no curto prazo, ainda pode provocar distorções de preços e repensar cadeias de suprimentos — o que tornaria o cenário econômico mais volátil.