A Natura deu um passo decisivo para reconfigurar seu futuro. No final de abril, os acionistas da companhia aprovaram, em assembleia, a maior reestruturação desde a aquisição da Avon, em 2019. A decisão marca o fim oficial da estratégia de expansão global e o retorno àquilo que tornou a marca forte: suas raízes brasileiras.
Com a aprovação, a holding Natura & Co foi incorporada pela antiga Natura Cosméticos, encerrando a estrutura criada há quase cinco anos para consolidar as aquisições internacionais. A movimentação é simbólica: representa o fechamento de um ciclo ambicioso — e custoso — de internacionalização.
Nos últimos anos, a Natura apostou pesado na compra de marcas estrangeiras, como a australiana Aesop, a britânica The Body Shop e a própria Avon. No auge da expansão, a companhia operava em mais de 100 países. Mas a complexidade operacional e os altos custos corroeram a rentabilidade e aumentaram a dívida do grupo, forçando uma mudança de rota.
Um novo comando para um novo ciclo
Com a reestruturação, João Paulo Ferreira assumiu como CEO da nova Natura Cosméticos, substituindo Fábio Barbosa, que agora ocupa a presidência do conselho de administração. A transição também sinaliza o início da sucessão da geração fundadora — formada por Guilherme Leal, Antônio Luiz Seabra e Pedro Passos — para uma nova liderança executiva.
Ferreira terá o desafio de reconduzir a Natura à lucratividade e proteger o valor da marca em meio a um mercado competitivo. Entre as prioridades está a venda das operações da Avon Internacional, considerada essencial para enxugar a operação e reequilibrar as finanças.
Hoje, a subsidiária Avon Products, que atua nos Estados Unidos, enfrenta dificuldades e passa por um processo de recuperação judicial no âmbito do Chapter 11 da legislação americana.
Um despertar para a realidade
A decisão de “desglobalizar” o grupo vinha se desenhando desde 2023, quando a Natura vendeu a Aesop para a L’Oréal por US$ 2,525 bilhões e, posteriormente, a The Body Shop para o grupo alemão Aurelius por US$ 254 milhões.
Apesar dessas vendas, a empresa encerrou 2024 com um prejuízo líquido de R$ 8,929 bilhões, revertendo o lucro de R$ 2,974 bilhões registrado no ano anterior. A receita líquida, no entanto, subiu 21,5% e alcançou R$ 24 bilhões.
Agora, com foco renovado no Brasil e na América Latina, a Natura busca reconstruir sua trajetória a partir de sua maior fortaleza: o propósito original de transformar desafios sociais e ambientais em inovação e negócios sustentáveis.
O sonho de ser um gigante global pode ter ficado para trás — mas a missão de ser relevante e lucrativa, a partir de casa, segue mais viva do que nunca.