Na primeira carta aos acionistas após a saída de Warren Buffett do cargo de CEO, Greg Abel deixou claro que a Berkshire Hathaway não deve passar por uma guinada brusca na gestão de sua carteira de ações. Pelo contrário: a mensagem foi de continuidade — e concentração.
Abel destacou quatro empresas como investimentos centrais e duradouros da holding: Apple, American Express, Coca-Cola e Moody’s. Segundo ele, são negócios que a Berkshire compreende profundamente, liderados por executivos respeitados e com potencial de geração de valor por décadas. A estratégia, indicou, continuará sendo concentrada, com baixa rotatividade nessas posições, salvo mudanças estruturais relevantes nas perspectivas de longo prazo.
Essas quatro participações respondem por mais da metade da carteira de ações da Berkshire, atualmente próxima de US$ 300 bilhões. Abel também colocou no mesmo grupo estratégico as cinco tradings japonesas nas quais a empresa investe — conjunto avaliado em cerca de US$ 35 bilhões. Juntas, essas nove posições representam aproximadamente dois terços do portfólio.
A ausência de alguns nomes chamou atenção. Bank of America e Chevron, historicamente entre os maiores investimentos da Berkshire, não foram citados como “participações centrais”. Nos últimos meses, a empresa reduziu significativamente sua posição no Bank of America, enquanto mantém cerca de US$ 20 bilhões investidos na Chevron.
A lógica das “ações para sempre”
Coca-Cola e American Express fazem parte da carteira da Berkshire há mais de quatro décadas. Moody’s está no portfólio há mais de 20 anos. São exemplos clássicos da filosofia de longo prazo defendida por Buffett e seu antigo parceiro Charlie Munger: comprar bons negócios e mantê-los por muito tempo.
O caso da Coca-Cola é emblemático. A Berkshire adquiriu suas ações no fim dos anos 1980 por um preço médio de cerca de US$ 3 por papel. Hoje, o valor de mercado é múltiplas vezes superior, transformando o investimento em um dos mais rentáveis da história da companhia.
A Apple é mais recente, com cerca de dez anos no portfólio. Apesar de a participação ter sido reduzida substancialmente nos últimos anos, Abel sinalizou que não há intenção de desmontá-la. O custo médio da Berkshire na Apple é significativamente inferior ao preço atual, o que reforça o caráter estratégico da posição.
Quem decide agora?
Se a carta trouxe clareza sobre as prioridades da carteira, deixou dúvidas sobre a dinâmica da gestão. Abel afirmou que a responsabilidade final sobre a alocação de capital é dele como CEO, mas ele não tem histórico como gestor de portfólio tradicional e já supervisiona dezenas de subsidiárias operacionais da Berkshire.
Warren Buffett continuará presente no escritório e disponível para discussões estratégicas. Já Ted Weschler, que atua como gestor de investimentos desde 2012, seguirá administrando uma pequena fatia da carteira — cerca de 6%. Com a saída de Todd Combs, não houve uma redistribuição significativa de responsabilidades.
Esse arranjo difere do que havia sido sinalizado anos atrás, quando se imaginava que os gestores internos assumiriam controle mais amplo após a transição de liderança.
Continuidade, não revolução
A carta sugere que a Berkshire deve preservar sua identidade histórica: foco em negócios de alta qualidade, visão de longo prazo e concentração de capital. Ao mesmo tempo, a estrutura atual indica que grandes movimentos em ações talvez não sejam o principal vetor de criação de valor nos próximos anos.