A disputa pelos bastidores da inteligência artificial ganhou um novo capítulo. A Meta está negociando um acordo bilionário para usar os chips do Google — tanto em seus futuros data centers, a partir de 2027, quanto no Google Cloud já no próximo ano. As conversas, reveladas pelo The Information, mostram que o Google começa a se posicionar de forma muito mais agressiva na corrida de infraestrutura de IA, um território que hoje pertence quase integralmente à Nvidia.

Se o acordo se concretizar, o Google deixaria de usar suas TPUs apenas dentro dos próprios data centers e abriria seu hardware para clientes externos. É uma mudança de estratégia com impacto direto no mercado: a Meta, sozinha, deve investir mais de US$ 70 bilhões em infraestrutura de IA em 2025.

O impacto estratégico

O movimento pode transformar o Google no primeiro concorrente realmente relevante da Nvidia no segmento mais valioso da computação contemporânea: os chips que treinam e operam grandes modelos de IA. Analistas estimam que, apenas com a entrada da Meta, o Google poderia capturar até 10% da receita anual da Nvidia, hoje na casa dos US$ 130 bilhões.

Nos Estados Unidos, o sinal desse possível realinhamento não passou despercebido. As ações do Google subiram cerca de 4% após a notícia, enquanto a Nvidia caiu mais de 3% no mesmo período. O mercado já vinha atento: a Alphabet fechou recentemente um fornecimento de até 1 milhão de chips para a Anthropic, colocando pressão adicional sobre a Nvidia — que, embora dominante, enfrenta gargalos de produção e prazos longos de entrega.

Uma virada de narrativa

Por anos, o Google foi visto como o “lanterna” entre as big techs na corrida da IA, apesar de ter sido pioneiro em várias tecnologias que alimentam o setor. Mas 2025 redesenhou essa percepção. O avanço do Gemini 3, o bom desempenho do Nano Banana Pro e a crescente aceitação das TPUs como alternativa viável às GPUs da Nvidia recolocaram a companhia entre as líderes tecnológicas do momento.

Esse reposicionamento aparece no mercado: as ações da Alphabet sobem quase 70% no ano, aproximando o valuation da empresa da marca dos US$ 4 trilhões — e há gestores que já a tratam como candidata mais séria ao topo do ranking global.

Por que isso importa para o ecossistema de IA

Se Meta e Google fecharem o acordo, o setor pode sofrer uma mudança profunda:

1. O monopólio de fato da Nvidia perde tração — abrindo espaço para competição de preços e novos padrões de hardware.

2. Grandes modelos passam a depender menos das GPUs, hoje com demanda acima da oferta e filas globais de entrega.

3. Empresas podem diversificar fornecedores, reduzindo risco operacional e custo de expansão de data centers.

4. Google Cloud ganha força, recuperando terreno perdido para a AWS e a Azure na guerra da nuvem.

Nada disso significa que a Nvidia perderá sua liderança. A empresa ainda está anos à frente em software, ecossistema e comunidade de desenvolvedores. Mas, pela primeira vez desde o início da revolução da IA generativa, há um competidor com escala, tecnologia e apetite suficientes para ameaçar sua hegemonia.

Um jogo de bilhões — e de influência

A Meta continua sendo uma das empresas mais dependentes de hardware especializado. Seus modelos — como o Llama 3 e o sucessor já em desenvolvimento — consomem uma quantidade massiva de capacidade computacional. Para Zuckerberg, ter opções além da Nvidia é tão estratégico quanto reduzir custos.

Para o Google, o acordo com a Meta seria mais que um contrato: seria uma demonstração pública de que suas TPUs podem brigar de igual para igual com as H100 e H200 da Nvidia. E colocaria a empresa em uma rota de crescimento acelerado dentro do segmento mais explosivo do setor de tecnologia.

A disputa pela inteligência artificial deixou de ser apenas uma corrida de modelos. Agora, é uma corrida de infraestrutura — e a Meta pode ser o ponto de virada que faltava para reposicionar o Google no coração dessa disputa.