O patrimônio imobiliário das famílias americanas atingiu a impressionante marca de US$ 35 trilhões, mas, para muitos proprietários, esse número não se traduz em tranquilidade financeira. Ao contrário: a alta nos impostos, nos custos fixos e nas dificuldades de acesso ao crédito têm gerado frustração — mesmo em meio à valorização dos imóveis.

Desde o início de 2020, o valor das propriedades residenciais disparou quase 80%, segundo o Federal Reserve, superando inclusive o crescimento da riqueza financeira (ações, títulos e afins) no mesmo período. No entanto, essa valorização trouxe junto um fardo: manter uma casa nos EUA ficou mais caro, vender ficou menos atrativo, e transformar patrimônio em liquidez está cada vez mais difícil.

Impostos, juros e incertezas

Um dos fatores que mais impactam os proprietários é o aumento dos impostos sobre a propriedade. Em algumas cidades, os reajustes ultrapassaram 50% em dois anos. Em Akron (Ohio), por exemplo, o salto foi de 106% entre 2021 e 2023.

Como os tributos são baseados em avaliações de mercado e nas alíquotas definidas pelas prefeituras, o crescimento dos preços automaticamente eleva os valores cobrados. Para muitos, isso significa cortar gastos, adiar reformas ou simplesmente pensar duas vezes antes de se mudar — mesmo quando há lucro envolvido.

Além disso, as vendas de imóveis atingiram o menor patamar desde 1995, reflexo direto das taxas de juros elevadas e da perspectiva de impostos altos sobre os ganhos de capital. Em 2023, cerca de 8% das vendas de casas excederam o limite de isenção de impostos sobre lucro, que permanece fixado em US$ 500 mil para casais — sem correção pela inflação.

Patrimônio que não vira dinheiro

Outro ponto que causa desconforto é a dificuldade de acesso ao patrimônio acumulado. Produtos como refinanciamento, empréstimos garantidos ou linhas de crédito estão menos acessíveis — tanto por critérios mais rígidos quanto pelas taxas mais altas. Mesmo proprietários com histórico impecável de crédito estão sendo recusados.

Com isso, muitos americanos preferem manter seus imóveis mesmo diante de grandes valorizações — como é o caso de Dana Cole, que viu seu apartamento em Los Angeles saltar de US$ 235 mil para US$ 1,2 milhão, mas decidiu não vender para evitar um imposto de aproximadamente US$ 300 mil.

Casa própria e o custo invisível da educação

Um efeito colateral do boom imobiliário atinge em cheio quem busca auxílio financeiro para pagar a faculdade. Muitas instituições, especialmente as mais seletivas, consideram o patrimônio da casa nos cálculos de elegibilidade para bolsas e subsídios.

Em alguns casos, US$ 100 mil em patrimônio imobiliário podem reduzir em até US$ 5 mil a ajuda financeira recebida. Isso tem levado famílias a monitorarem o valor de seus imóveis quase como uma obsessão — e até a desejarem parecer menos ricas nos formulários de admissão.

A ideia da casa própria como símbolo de estabilidade está sendo revisitada. A valorização do imóvel, que por gerações foi sinônimo de sucesso, agora impõe desafios reais: custos altos, impostos crescentes, liquidez restrita e impacto direto em outras áreas da vida familiar.

Em um cenário onde a riqueza não é facilmente acessada, muitos proprietários estão descobrindo que ser “rico em imóvel” pode não significar, necessariamente, estar financeiramente confortável.