Os sinais de alívio na inflação nos Estados Unidos poderiam sugerir um corte de juros iminente pelo Federal Reserve (Fed). Mas, por enquanto, não é o que vai acontecer. O motivo? O banco central americano ainda vê riscos demais à frente — e a principal preocupação agora são as expectativas de inflação.

Entre inflação e emprego: qual risco o Fed prefere enfrentar?
Na reunião desta quarta-feira (17), as autoridades do Fed devem manter os juros elevados, apesar de três meses de dados mais benignos de inflação. Um dos principais motivos para essa cautela é o impacto potencial das tarifas impostas pelo governo Trump, que podem mexer com a formação de preços.

O temor é que o consumidor e as empresas passem a esperar uma inflação mais alta no futuro. E, quando isso acontece, há um efeito em cadeia: lojistas aumentam os preços antes mesmo de sofrer os custos; locadores antecipam reajustes de aluguel; e trabalhadores pedem salários maiores para se proteger.

“Se todo mundo começa a esperar uma inflação maior, ela de fato sobe. E é com isso que o Fed está preocupado”, disse Alan Detmeister, economista do UBS.

O peso das expectativas
O problema é que as chamadas “expectativas de inflação” são difíceis de medir. Pesquisas com consumidores, projeções de mercado e até a própria análise dos membros do Fed entram no cálculo.

Em maio, a pesquisa da Universidade de Michigan mostrou uma alta inesperada nas expectativas de inflação, tanto de curto quanto de longo prazo. Já o levantamento do Fed de Nova York indicou um aumento mais modesto.

Mesmo assim, o alerta acendeu. Segundo John Williams, presidente do Fed de Nova York, os últimos cinco anos mudaram o modo como os americanos enxergam a inflação. Antes da pandemia, quem tinha menos de 40 anos praticamente não sabia o que era conviver com alta de preços. Hoje, essa percepção é generalizada em todas as idades.

O fantasma de 2021 e o peso das tarifas de Trump
Outro fator que trava o corte de juros é o receio de repetir erros recentes. Em 2021, o Fed acreditou que a inflação alta seria “temporária” após a reabertura da economia. O resultado foi um atraso na resposta monetária, que obrigou o banco central a fazer um dos ciclos de alta de juros mais agressivos da história recente.

Agora, o governo Trump volta a ser uma variável de risco. As tarifas aplicadas desde março são vistas como um fator que pode provocar um novo salto de preços — ainda que alguns economistas, como Christopher Waller, do próprio Fed, apostem que o impacto será pontual.

“Será que estou brincando com fogo ao assumir essa posição de novo? Acho que sim”, admitiu Waller em um discurso recente.

O mercado de trabalho como contrapeso
Por outro lado, o mercado de trabalho americano dá sinais de enfraquecimento. Para alguns dirigentes do Fed, isso reduz o risco de uma nova onda inflacionária. A lógica é simples: com menos pressão por salários, as empresas terão mais dificuldade de repassar custos ao consumidor.

“O trabalhador está mais preocupado em manter o emprego do que em pedir aumento”, disse Waller.

Se a economia desacelerar ainda mais, o Fed poderá se ver forçado a cortar os juros para evitar uma recessão.

E agora?
O dilema central segue o mesmo: o que representa o maior risco neste momento? Uma inflação descontrolada ou uma freada mais brusca no emprego e no crescimento?

A resposta, por enquanto, é ficar parado. E observar de perto qual lado da balança vai pesar primeiro.