Após quase 60 anos no comando de um dos maiores conglomerados financeiros do mundo, Warren Buffett anunciou que pretende se afastar da função de CEO da Berkshire Hathaway. Aos 94 anos, o lendário investidor passa o bastão não a um astro das finanças, mas a um operador silencioso e eficaz: Gregory E. Abel.

Quem é Greg Abel?

Nascido em Edmonton, no Canadá, Abel tem 62 anos e uma trajetória marcada por solidez e discrição. Contador de formação e fã de hóquei — esporte que praticou na juventude e hoje ensina voluntariamente ao time do filho em Des Moines — Abel começou a ganhar protagonismo na Berkshire em 2000, quando Buffett adquiriu o controle da MidAmerican Energy, empresa da qual ele já era presidente.

Desde então, sua ascensão foi constante. Em 2018, foi nomeado vice-presidente da Berkshire, responsável pelas empresas não seguradoras do grupo. Na prática, isso significa que ele supervisiona nada menos que 189 negócios operacionais, de gigantes como a ferrovia BNSF e a Berkshire Hathaway Energy até marcas populares como Fruit of the Loom, Dairy Queen, NetJets e as joalherias Borsheims.

Por que ele foi escolhido?

Buffett sempre valorizou líderes com “pele em jogo”, espírito empreendedor e habilidade de navegar sem precisar de holofotes — e Greg Abel cumpre todos esses critérios. Ao longo dos anos, conquistou a confiança do Oráculo de Omaha com duas qualidades essenciais: capacidade operacional e alinhamento cultural.

Foi Abel quem liderou a transformação da MidAmerican em uma potência do setor energético, e desde sua promoção em 2018, administra uma coleção de empresas que gerou mais de US$ 5 bilhões em lucros operacionais apenas no primeiro trimestre deste ano. Em 2023, Buffett chegou a dizer: “Ele faz todo o trabalho e eu recebo os aplausos. Ele é uma grande melhoria em relação a mim — mas não conte isso para ninguém.”

Além disso, Abel é visto como alguém que respeita e preserva a cultura única da Berkshire: descentralização administrativa, visão de longo prazo e confiança extrema nos gestores das subsidiárias. Uma postura bem diferente do estilo mais direto e controverso de David Sokol, ex-executivo da empresa que foi afastado após um escândalo de conflito de interesses em 2011.

O que muda com a liderança de Abel?

Embora Buffett tenha entrado para a história como o investidor que comprava ações com sabedoria cirúrgica, a Berkshire Hathaway de hoje é um conglomerado diversificado, com mais de 392 mil funcionários e operações que vão muito além do mercado financeiro. Nesse novo contexto, a habilidade de Abel em gerir empresas será ainda mais valiosa do que a genialidade em stock picking.

A gestão dos investimentos seguirá nas mãos de Todd Combs e Ted Weschler, que já dividem essa função com Buffett há anos. Já Abel será o responsável por conduzir negociações estratégicas e possíveis aquisições — um desafio considerável, dado o cofre de mais de US$ 347 bilhões da Berkshire e a dificuldade de encontrar negócios suficientemente grandes para mover sua agulha financeira.

Um novo capítulo para a Berkshire Hathaway

Com sua discrição, firmeza e visão de longo prazo, Greg Abel não tenta ocupar o espaço deixado por Buffett — ele se posiciona para preservar e expandir o legado do mentor. Nas palavras do falecido Charlie Munger, sócio de Buffett por décadas: “Greg manterá a cultura.” E, para os acionistas, essa é talvez a maior garantia de continuidade.

A era Buffett pode estar se encerrando, mas o espírito da Berkshire — pragmático, paciente e orientado por valor — parece estar em boas mãos.