O Federal Reserve confirmou as expectativas do mercado ao anunciar um corte de 0,25 ponto percentual na taxa de juros, mas foram as projeções atualizadas e o discurso de Jerome Powell que realmente movimentaram as análises. O cenário agora aponta para dois cortes adicionais ainda em 2025, além de ajustes marginais em 2026 e 2027, com a taxa básica podendo chegar a 3% nos próximos anos.
Projeções revisadas
As estimativas para o crescimento econômico subiram: o PIB projetado para 2025 foi revisado de 1,4% para 1,6%, e para 2026, de 1,6% para 1,8%. No mercado de trabalho, embora o ritmo de criação de vagas esteja em desaceleração, o desemprego foi ajustado levemente para baixo em 2026 (de 4,5% para 4,4%), reflexo da queda no número de imigrantes nos EUA. Já a inflação continua no radar: a previsão para 2026 subiu de 2,4% para 2,6%, sinalizando um processo de desinflação menos rápido que o desejado.
Um detalhe chamou atenção: Stephen Miran, novo indicado por Donald Trump, defendeu um corte mais agressivo, de 0,50 ponto. O episódio reforça a leitura de que futuros indicados poderão pressionar por uma flexibilização mais acelerada da política monetária.
Powell em tom brando
Na coletiva, Powell adotou um discurso considerado dovish (brando) por parte dos analistas. Ele destacou o duplo mandato do Fed — inflação e pleno emprego — e avaliou que os recentes avanços da inflação vieram principalmente de bens, enquanto os serviços já passam por desinflação. Além disso, reforçou que o impacto das tarifas de importação segue contido e deve ser temporário.
Para Powell, o risco de uma inflação persistentemente alta diminuiu, o que abre espaço para que o Fed migre de uma postura restritiva para uma mais neutra. Essa visão foi interpretada pelo mercado como sinal de maior disposição do Comitê em aceitar riscos inflacionários para evitar um enfraquecimento mais severo do mercado de trabalho.
Leituras do mercado
Ritmo de cortes: A leitura predominante é que o Fed pode manter cortes graduais de 0,25 ponto por reunião até alcançar a faixa de 3% ao ano. No entanto, se o desemprego avançar mais rapidamente, não está descartado um ritmo mais agressivo.
Pressão inflacionária: Apesar do alívio temporário, há cautela quanto ao efeito prolongado das tarifas impostas nos últimos meses.
Divisão interna: A defesa isolada de um corte de 0,50 ponto foi interpretada como sinal de dissidência menor do que se previa, reforçando que o Fed segue comprometido em manter a política no campo neutro, e não estimulativo.
O que vem pela frente
O início do ciclo de cortes abre espaço para valorização dos ativos de risco, mas os próximos passos do Fed vão depender da trajetória dos indicadores. Powell deixou claro: se a inflação insistir em se manter acima da meta ou se o mercado de trabalho der sinais mais fortes de fragilidade, o ritmo pode mudar rapidamente.