A corrida global por cobre ganhou um novo capítulo no deserto do Arizona. Em meio à explosão de investimentos em inteligência artificial e infraestrutura digital, a Amazon firmou um acordo para abastecer parte de seus data centers com cobre produzido por um método até pouco tempo considerado inviável economicamente nos Estados Unidos.

O fornecimento vem de uma mina reativada pela Rio Tinto, que se tornou, no ano passado, a primeira nova fonte de cobre em operação no país em mais de dez anos. O diferencial não está apenas no local, mas no processo: a extração utiliza bactérias e ácido para liberar o metal de minérios de baixo teor, por meio de uma tecnologia conhecida como bio-lixiviação, desenvolvida pela mineradora sob o projeto Nuton.

O contrato de dois anos com a Amazon Web Services funciona como uma validação comercial dessa tecnologia, num momento em que grandes empresas de tecnologia buscam garantir acesso antecipado a insumos críticos para a expansão de seus data centers. O cobre é essencial para praticamente toda a infraestrutura elétrica desses complexos, de cabos e transformadores a placas e sistemas de distribuição de energia.

Ainda assim, o volume envolvido é pequeno frente às necessidades do setor. A expectativa da Rio Tinto é produzir cerca de 14 mil toneladas de cobre ao longo de quatro anos no projeto do Arizona — quantidade insuficiente para abastecer um único data center de grande porte, que pode consumir dezenas de milhares de toneladas do metal.

Mesmo limitada em escala, a iniciativa aponta para um movimento mais amplo. A Rio Tinto aposta na tecnologia Nuton como uma forma de ampliar a produção global sem depender de grandes descobertas, cada vez mais raras e caras. Estima-se que cerca de 70% das reservas conhecidas de cobre estejam em minérios sulfetados de baixo teor, que até hoje não compensavam os custos de processamento tradicional.

No projeto do Arizona, o minério é empilhado e tratado com uma combinação de bactérias e soluções químicas, permitindo que o cobre seja separado e convertido diretamente em cátodos prontos para uso. O primeiro lote foi produzido em dezembro, marcando um avanço concreto após décadas de testes em laboratório.

A pressão sobre o mercado de cobre só aumenta. A demanda ligada à construção de data centers, à modernização das redes elétricas, aos veículos elétricos e às fontes renováveis vem mais do que compensando a desaceleração de setores tradicionais da indústria e da construção civil. Como resultado, os preços atingiram recordes históricos recentemente, com contratos negociados acima de US$ 6 por libra em Londres e Nova York.

Nos Estados Unidos, esse movimento pode ser intensificado por novas barreiras comerciais. O governo avalia ampliar tarifas sobre produtos de cobre, somando-se aos impostos já aplicados no ano passado, o que tende a encarecer ainda mais o metal no mercado doméstico.

O desafio estrutural é de longo prazo. Em média, levar uma mina da descoberta à produção comercial pode consumir mais de 20 anos. Mesmo com estímulos à reciclagem e ganhos de eficiência no uso do cobre, analistas alertam para um desequilíbrio crescente entre oferta e demanda. Projeções indicam que a expansão da inteligência artificial pode elevar o consumo global de cobre em cerca de 50% até 2040, enquanto a produção mineradora tende a ficar para trás.

Nesse cenário, iniciativas como a do Arizona funcionam menos como solução imediata e mais como sinalização estratégica. Para a Amazon, trata-se de reduzir riscos em uma cadeia crítica. Para a Rio Tinto, é a aposta de que tecnologias capazes de destravar minérios antes ignorados podem redefinir a próxima fase da mineração.