Os Estados Unidos amanheceram nesta quarta-feira (1º) em seu primeiro shutdown desde 2019. O Congresso não conseguiu aprovar o orçamento para o ano fiscal de 2026, levando à suspensão parcial das atividades do governo e à dispensa temporária de centenas de milhares de servidores.
A cena não é inédita para Donald Trump — esta é a terceira paralisação sob sua presidência. Mas, desta vez, a crise ocorre em um momento de juros altos, dívida recorde e eleições legislativas no horizonte, o que amplia os riscos.
Impactos além das fronteiras
Historicamente, paralisações curtas não afetam de forma profunda a maior economia do mundo. Em 2019, o fechamento de 35 dias custou US$ 3 bilhões em perdas que nunca foram recuperadas. Mas, em um cenário já frágil, qualquer incerteza adicional se espalha rapidamente pelos mercados globais.
No câmbio, a primeira reação tende a ser a valorização do dólar, conforme investidores buscam refúgio em ativos considerados mais seguros. Isso pressiona moedas emergentes, como o real. “O impacto inicial deve ser de aversão ao risco, mas o fluxo positivo via exportações de commodities pode amortecer parte desse movimento”, avalia Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank.
Já para Beto Saadia, diretor de investimentos da Nomos, a equação pode inverter: “Com PIB pressionado e dívida elevada, o dólar pode perder força em relação a outras moedas. O movimento já vinha desde o início do ano e pode se intensificar.”
Reflexo nas empresas brasileiras
Companhias locais também sentem. O dólar mais forte, somado à alta dos juros globais, encarece o custo de captação. “Isso reduz a margem de manobra e aumenta a seletividade dos investidores”, explica Richard Ionescu, CEO do Grupo IOX. Nesse contexto, instrumentos como FIDCs, que oferecem previsibilidade de fluxo, ganham atratividade.
Fed no escuro
Um agravante desta vez é o impacto sobre a divulgação de indicadores-chave. O relatório de emprego de setembro, peça central na decisão recente do Federal Reserve de cortar juros, pode ser adiado. Sem esses dados, o banco central americano fica temporariamente às cegas.
“Isso aumenta a chance de realização nos mercados. A ausência de informações sobre o trabalho, que é a principal variável do ciclo atual, fragiliza a tomada de decisão e pode trazer volatilidade para as bolsas”, observa Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.
E se o shutdown durar?
Quanto maior a paralisação, maior o peso no consumo interno dos EUA. Economistas calculam perdas médias de -0,1% do PIB por semana. Para Andressa Durão, economista do ASA, “os servidores públicos tendem a adiar compras e investimentos até receberem seus salários, o que se traduz em menor atividade econômica e confiança fragilizada”.
O shutdown ainda está em seus primeiros dias, mas já se impõe como mais um fator de risco para investidores.