A semana começa com o mercado financeiro tentando encontrar equilíbrio após uma sucessão de eventos de alto impacto. No cenário internacional, o ex-presidente Donald Trump decidiu adiar para 9 de julho a imposição da tarifa de 50% sobre produtos da União Europeia, o que trouxe alívio imediato aos mercados e impulsionou os futuros de Nova York na noite de domingo, apesar dos feriados nos Estados Unidos e no Reino Unido. O telefonema entre Trump e Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, acalmou o tom beligerante da sexta-feira anterior, quando o republicano havia ameaçado iniciar as taxações já em 1º de junho.
No Brasil, o foco permanece sobre a condução fiscal do governo. O decreto que aumentaria o IOF sobre remessas internacionais gerou reação negativa quase unânime do mercado — tanto pela forma como foi anunciado quanto pelos impactos potenciais. A medida previa, por exemplo, a elevação da alíquota de zero para 3,5% nas remessas de fundos para o exterior. A reação foi tão intensa que, em menos de 24 horas, o Ministério da Fazenda voltou atrás parcialmente e manteve a isenção sobre os investimentos de pessoas físicas. Ainda assim, a credibilidade da equipe econômica foi colocada em xeque.
O ministro Fernando Haddad afirmou que o decreto havia sido discutido “há bastante tempo” e que o recuo se deu após revisão técnica. O episódio, no entanto, expôs falhas de articulação e gerou comparações com outros desgastes recentes do governo, como a polêmica do “imposto das blusinhas” e a crise do Pix. Pior: alguns analistas interpretaram a proposta como uma tentativa disfarçada de controle de capitais, o que reacendeu preocupações com os rumos da política econômica.
Enquanto isso, a agenda da semana é densa. No Brasil, destaque para a divulgação do IPCA-15 de maio (terça), do PIB do primeiro trimestre (sexta), além dos dados de emprego do IBGE, Caged e os resultados do setor público. Também será publicada, na quarta-feira, a ata do Copom, com o mercado atento a sinais sobre o fim do ciclo de aperto monetário. Nos Estados Unidos, os investidores aguardam a segunda prévia do PIB (quinta) e o PCE (sexta), índice de inflação preferido do Federal Reserve.
No mercado, o episódio do IOF teve efeito semelhante ao de uma alta entre 0,25 e 0,50 ponto percentual na Selic, segundo cálculos do Bradesco e da XP, o que pode antecipar o encerramento do ciclo de alta de juros. A precificação atual já indica 72% de probabilidade de taxa estável em junho. Mesmo assim, o ambiente de incerteza continua elevado. A percepção de risco fiscal e a aproximação do calendário eleitoral adicionam camadas de tensão a qualquer medida que envolva arrecadação.
Na sexta-feira, o Ibovespa conseguiu driblar o estresse e fechou em alta de 0,40%, aos 137.824 pontos, sustentado por ações como Braskem, que subiu mais de 9% após confirmação de interesse do empresário Nelson Tanure na fatia da Novonor. O dólar, que chegou a subir 1,5% no início do pregão com o anúncio do decreto, perdeu força ao longo do dia e fechou em queda de 0,27%, cotado a R$ 5,64. O BTG Pactual revisou sua projeção de dólar para o fim do ano de R$ 6,00 para R$ 5,60, apostando em um dólar global mais fraco.
Além da política fiscal e monetária, a semana também reserva expectativas em torno de pautas no Congresso. Está prevista a discussão de propostas para limitar os efeitos do novo IOF, além do avanço de temas como a reforma do Imposto de Renda e a crise dos descontos indevidos em aposentadorias do INSS, que já gerou mais de 2 milhões de pedidos de reembolso.
No pano de fundo global, a tensão geopolítica segue pressionando o humor dos investidores. A Rússia realizou no fim de semana o maior ataque aéreo contra cidades da Ucrânia desde o início do ano. E no Oriente Médio, os ataques israelenses em Gaza voltaram a se intensificar. Apesar disso, os preços do petróleo subiram levemente, impulsionados pela fraqueza do dólar.
A semana, portanto, começa com um misto de alívio e cautela. O recuo de Trump pode trazer algum fôlego aos mercados internacionais, mas a crise fiscal interna e o desgaste da comunicação do governo seguem como variáveis sensíveis no radar dos investidores.