O Brasil, maior produtor de café do mundo, enfrenta um ponto crítico na sustentabilidade da sua principal commodity agrícola. Um relatório recente da organização Coffee Watch alerta que a expansão desordenada das plantações — impulsionada pela demanda global crescente — está degradando as condições climáticas que tornaram o país referência na produção do grão.

De acordo com o estudo, o desmatamento no cinturão cafeeiro do Sudeste — especialmente em Minas Gerais e Espírito Santo — reduziu significativamente o volume e a regularidade das chuvas na última década, comprometendo a produtividade e a estabilidade das colheitas. O fenômeno cria um ciclo perverso: quanto mais floresta se perde, menos chove; quanto menos chove, menor é a produção — e maior tende a ser o preço do café no mundo.

Um equilíbrio climático em colapso

O relatório da Coffee Watch correlaciona imagens de satélite e dados meteorológicos com a queda de produtividade em regiões tradicionalmente férteis. A análise mostra que o desmatamento reduziu as precipitações em áreas-chave, forçando produtores a recorrer a irrigação artificial e a expandir áreas de cultivo — o que acelera ainda mais a perda florestal.

Os impactos já aparecem no mercado. Após a seca severa de 2014, o déficit hídrico se tornou recorrente, e desde então os períodos de chuva frequentemente não coincidem com o ciclo ideal das lavouras. O resultado é uma produção mais irregular e um solo cada vez menos fértil.

O relatório estima que, mantido o ritmo atual, boa parte do cinturão cafeeiro brasileiro poderá perder sua viabilidade até 2050. “A degradação ambiental está corroendo as bases do próprio negócio”, diz o documento.

Um problema global com epicentro brasileiro

O alerta ecoa outras pesquisas, como um estudo publicado na revista Nature Communications, que apontou uma redução de até 75% nas chuvas em algumas regiões afetadas pelo desmatamento amazônico. A correlação entre perda de floresta e colapso climático começa a ser quantificada com precisão inédita graças a novas ferramentas de monitoramento.

A situação também reacende o debate internacional sobre rastreabilidade. A União Europeia aprovou uma lei que exige comprovação de que produtos agrícolas — incluindo café — não vêm de áreas desmatadas recentemente. O Brasil, que abastece o maior mercado consumidor global da bebida, criticou a norma, alegando que ela é punitiva e ignora esforços nacionais de preservação.

Em resposta, o país defende a criação de um fundo internacional que remunere nações em desenvolvimento pela conservação das florestas — uma pauta que deve ganhar destaque na COP30, em Belém, no próximo mês.

Impactos econômicos e risco de oferta

Além das implicações ambientais, o tema preocupa investidores e exportadores. O café brasileiro representa cerca de 40% da oferta global, e oscilações na safra nacional têm impacto direto sobre os preços internacionais.

Em 2024, a combinação de seca e perda de produtividade fez os preços futuros do café atingirem as máximas em uma década. Especialistas alertam que, se o padrão climático continuar se deteriorando, o mercado pode enfrentar uma nova escalada inflacionária nos próximos anos — com margens mais apertadas para produtores e repasses inevitáveis ao consumidor final.

Embora o governo brasileiro tenha conseguido reduzir o ritmo de desmatamento em alguns biomas, o avanço sobre novas áreas agrícolas continua em ritmo elevado. E, paradoxalmente, o próprio sucesso da exportação de commodities como o café pode se tornar sua maior ameaça.