De vilã a estrela dos mercados globais. A América Latina, que enfrentava um cenário desafiador em 2024, acumulou uma alta expressiva de 24,7% em dólares no primeiro semestre de 2025. Nesse movimento, o Brasil desponta como a peça-chave entre os emergentes — e os investidores já estão de olho.
Atrativos domésticos, cenário favorável
Em relatório assinado por Fernando Ferreira, estrategista-chefe da XP, o Brasil é apontado como uma das apostas mais sólidas entre os emergentes, impulsionado por múltiplos fatores: valuation descontado, fundamentos microeconômicos robustos, taxa de juros no topo e um mercado com liquidez e profundidade incomparáveis na região.
Além disso, a aproximação das eleições de 2026 e o novo ambiente monetário — caracterizado pela transição para um regime de “inflação em alta, juros em queda” — favorecem ativos de risco. Varejo, bancos e empresas de valor devem ser os grandes beneficiados nesse ciclo, segundo a análise.
Peso crescente no MSCI LatAm
O protagonismo brasileiro é confirmado pelos dados do MSCI LatAm, índice que hoje concentra 59,8% de sua composição em ações do Brasil — a maior participação desde 2004. O país é, inclusive, o único da região que viu o número de empresas listadas no índice aumentar ao longo do tempo.
Enquanto isso, o México, segundo maior peso, recuou de 33,4% para 28,1%. Chile, Peru e Colômbia completam a lista com participações mais modestas. A Argentina, rebaixada a “Standalone Market”, está fora do índice desde 2021.
Fundamentos em ordem
A combinação de inflação sob controle, câmbio estável, desemprego próximo das mínimas históricas e déficits externos em patamares saudáveis fortalece a tese de investimento na região. Para a gestora britânica Ashmore, a América Latina — e particularmente o Brasil — entrou em 2025 com os fundamentos mais organizados dos últimos anos.
A XP, por sua vez, mantém projeção otimista para o Ibovespa: 150 mil pontos até o fim do ano, representando uma valorização de 8% em relação ao fechamento de junho.
JPMorgan e UBS reforçam recomendação
O JPMorgan revisou suas projeções para o segundo semestre e manteve o Brasil como posição overweight em sua carteira de emergentes. A avaliação é que, mesmo com juros reais elevados, o país segue surpreendendo com crescimento e inflação em queda, além de ser menos exposto à guerra tarifária global — podendo até se beneficiar com aumento das exportações agrícolas.
No fim de junho, o UBS também elevou a recomendação para o Brasil, passando de neutra para overweight. A decisão veio após o Banco Central elevar a Selic para 15% — o que, apesar de inesperado, foi interpretado pelo mercado como o provável ponto final do ciclo de alta.
O banco vê ainda um cenário político potencialmente favorável aos mercados, com a possibilidade de retorno de uma agenda mais liberal em 2026.
Emergentes à frente dos EUA
No agregado, os mercados emergentes superaram o desempenho dos EUA em 6% no primeiro semestre. O avanço foi puxado por lucros corporativos crescentes, múltiplos em expansão e moedas mais fortes. A China, embora ainda envolta em desafios, segue como uma das posições-chave nos portfólios globais.
Apesar disso, os fluxos para os emergentes ainda oscilam, refletindo a cautela dos investidores em meio às incertezas globais. O Brasil, no entanto, aparece cada vez mais como um ponto de estabilidade relativa — e, para muitos, como a nova bola da vez.