A bolsa brasileira vive um momento raro de tração contínua. Em apenas 12 meses, o Ibovespa acumula alta de 46%, impulsionado por um fluxo estrangeiro que voltou com força e rapidez incomum. Só nas primeiras semanas do ano, investidores de fora já colocaram R$ 12,3 bilhões líquidos em ações brasileiras — quase metade de tudo o que entrou ao longo de 2024 inteiro.
Esse movimento explica por que o índice rompeu sucessivos recordes nos últimos dias e passou a orbitar a região dos 179 mil pontos. Em cinco pregões, o avanço foi de 8%. No acumulado do ano, 11%. E, diferente de outros ralis recentes, desta vez o motor não é doméstico.
No pregão mais recente, o Ibovespa fechou em alta de 1,86%, aos 178.858 pontos. O dólar, pressionado pelo fluxo externo, terminou praticamente estável, a R$ 5,2865 — mantendo-se abaixo de R$ 5,30, nível que não era visto desde o fim do ano passado.
Por que o dinheiro voltou
O Brasil reapareceu no radar global por uma combinação difícil de replicar em outros emergentes: liquidez elevada, empresas grandes e conhecidas, e preços ainda atrativos em dólar. Em um ambiente em que gestores internacionais buscam reduzir a concentração excessiva nos Estados Unidos, o mercado brasileiro passou a funcionar como porta de entrada natural na América Latina.
O contexto global também ajudou. A redução do ruído geopolítico — após declarações mais moderadas de Donald Trump sobre tarifas e disputas territoriais — diminuiu a aversão ao risco e abriu espaço para uma nova rodada de alocação em ativos considerados mais voláteis, como ações de países emergentes.
O reflexo aparece nos índices globais. O principal ETF de mercados emergentes, o MSCI Emerging Markets, sobe mais de 7% no ano e acumula valorização de 38% em 12 meses. No mesmo intervalo, o S&P 500 avançou cerca de 13%, sinalizando que o entusiasmo com as grandes empresas de tecnologia já não domina sozinho o fluxo global.
Pequeno para eles, enorme para nós
Não se trata de uma migração estrutural de capitais para fora dos EUA. Para investidores globais, o volume direcionado a mercados emergentes segue pequeno frente ao tamanho do mercado americano. Mas, para uma bolsa como a brasileira, esse fluxo é suficiente para provocar movimentos expressivos de preço em pouco tempo.
Esse mesmo processo ajuda a explicar a valorização recente do real. Desde o fim de dezembro, o dólar já recuou cerca de 3,5% frente à moeda brasileira, acompanhando o enfraquecimento global da divisa americana e a maior entrada de recursos financeiros.