Nova mistura na gasolina favorece as usinas que mais investiram — e não foram as de sempre

A principal mudança no mercado de biocombustíveis dos últimos anos tem um vencedor claro — e não é a cana-de-açúcar. O aumento da mistura de etanol na gasolina para 30%, prestes a ser aprovado, deve adicionar quase 800 milhões de litros de demanda. Mas quem vai atender esse salto, ao que tudo indica, são as usinas de milho, e não os nomes tradicionais do setor sucroalcooleiro.

Enquanto Raízen, São Martinho e companhia apertam os cintos com margens espremidas, dívidas elevadas e menor produtividade agrícola, as usinas de milho avançam com custo 25% menor, oferta crescente e até receita extra com ração animal — um combo que transformou o etanol de milho no novo protagonista do setor.

O Brasil ainda é o segundo maior produtor global de etanol, mas a fonte dessa liderança está mudando. Só nesta safra, a produção de etanol de milho cresceu 2 bilhões de litros, enquanto a de cana encolheu. As usinas sucroalcooleiras, diante da concorrência da gasolina (muito abaixo do preço internacional), mudaram de rota: preferiram produzir mais açúcar — e já garantiram hedge para isso a preços elevados.

Essa troca ajudou a derrubar os contratos futuros de açúcar em NY em 15% no ano. Mas manteve o Brasil como o maior exportador do mundo do produto — uma forma de ganhar no volume o que se perde na margem.

No mercado de capitais, porém, os reflexos são menos doces: ações como Raízen, Jalles Machado e São Martinho desabaram cerca de 40% nos últimos 12 meses, desempenho bem abaixo do Ibovespa.

A São Martinho já entendeu o recado e começou a diversificar: adicionou uma planta de etanol de milho ao portfólio. E seu próprio CEO admite: sem avanço tecnológico e sem eficiência, parte das usinas de cana tende a desaparecer nos próximos anos.

A vantagem do milho é que ele chegou sem o peso da tradição. E isso, em um setor em transformação, pode ser o maior ativo de todos.