A Argentina está prestes a fazer seu mais importante teste de confiança em anos. O governo de Javier Milei realiza nesta quarta-feira (10) a emissão de um novo título do Tesouro atrelado ao dólar, sob legislação local — o primeiro desse tipo desde 2020 — num movimento que pode abrir caminho para a retomada futura das captações internacionais.

O objetivo oficial é simples: medir o apetite do investidor estrangeiro por risco argentino. Mas, nos bastidores, autoridades tratam a operação como um ensaio geral para o retorno aos mercados globais, após um período prolongado marcado por calotes, controles cambiais e incerteza fiscal.

Um ensaio doméstico com olhos no exterior

A emissão do Bonar, com vencimento em novembro de 2029, prevê cupom anual de 6,5% pago semestralmente. O ministro da Economia, Luis Caputo, sinalizou que busca ao menos US$ 1 bilhão com rendimento abaixo de 9%. Parte do montante será usada para rolar vencimentos já contratados, que somam cerca de US$ 4,5 bilhões em janeiro e valor semelhante em julho de 2026.

O governo já contava com a demanda local — fundos domésticos têm participado ativamente de emissões de províncias e empresas. O verdadeiro teste é a reação dos investidores estrangeiros. Segundo interlocutores do mercado, a procura internacional pode atingir entre US$ 2 bilhões e US$ 4 bilhões, com participação relevante de fundos “real money” e bancos globais.

Um atrativo imediato está no prazo mais curto. Em um mercado de emergentes dominado por papéis de 10 anos, títulos com duração inferior a cinco anos são raros e ganham destaque entre gestores que buscam menor exposição ao risco de longo prazo.

Caputo mobiliza investidores; governo endurece controles

Segundo fontes próximas às negociações, Caputo já teria alinhado investidores internacionais dispostos a entrar no leilão. A operação, porém, exigiu novos ajustes no regime cambial para evitar movimentos especulativos durante a oferta.

O Banco Central anunciou duas regras temporárias:

1. Pessoas físicas que comprarem dólares para participar da emissão deverão manter a moeda por 15 dias antes de revendê-la no mercado.

2. Bancos que comprarem o título e depois vendê-lo por pesos ficarão proibidos de recomprar dólares por 90 dias.

O objetivo é conter estratégias de arbitragem e estabilizar o mercado de câmbio durante a operação.

Por que essa emissão importa

A Argentina voltou ao radar dos investidores após fechar um acordo de US$ 20 bilhões com o FMI e flexibilizar parte das regras cambiais. O governo tenta reconstruir credibilidade para voltar a emitir dívida externa, algo que não acontece desde antes da pandemia.

O sucesso deste primeiro leilão doméstico em dólar pode:

– abrir espaço para uma emissão global nos próximos meses,

– testar qual prêmio de risco os mercados exigem hoje,

– mostrar a disposição de fundos internacionais em financiar o país durante sua fase de ajuste econômico.

Para Milei, que aposta na consolidação fiscal como prioridade, a reabertura do mercado internacional é peça central para alongar prazos, reduzir custos de financiamento e aliviar pressões cambiais.