Após mais de 20 anos de negociações intermitentes, o acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia avançou para sua fase decisiva. Nesta sexta-feira, o bloco europeu deu sinal verde político ao tratado, liberando o caminho para a assinatura formal prevista para janeiro e, posteriormente, para os processos de ratificação nos parlamentos.

Se implementado conforme o desenho atual, o acordo pode gerar um acréscimo de até 0,46% na atividade econômica do Brasil, segundo estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Em valores correntes, isso representa algo próximo de US$ 9 bilhões adicionais por ano ao Produto Interno Bruto.

O entendimento cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e uma economia combinada superior a US$ 22 trilhões. Para o Mercosul, a União Europeia já é hoje o segundo maior parceiro comercial em bens. Para o Brasil, é o segundo principal destino das exportações, atrás apenas da China.

Em 2025, o Brasil exportou quase US$ 50 bilhões ao bloco europeu, enquanto importou pouco mais de US$ 50 bilhões, resultando em um leve déficit comercial. Esse desequilíbrio reflete, sobretudo, a maior dependência brasileira de produtos industriais, farmacêuticos e tecnológicos vindos da Europa, enquanto as exportações seguem concentradas em commodities, insumos agropecuários, minérios e café.

O desenho do acordo prevê a eliminação gradual de tarifas sobre a maior parte do comércio bilateral. Do lado brasileiro, cerca de 91% das importações provenientes da União Europeia terão tarifas zeradas ao longo do tempo. No caso de bens sensíveis, como automóveis, a abertura será lenta e escalonada, ao longo de até 15 anos, justamente para evitar choques abruptos sobre a indústria local.

Já a União Europeia se compromete a remover tarifas sobre aproximadamente 92% das exportações do Mercosul em um horizonte de até dez anos. Para produtos agrícolas considerados politicamente sensíveis no continente europeu, a liberalização ocorrerá por meio de cotas. A carne bovina, por exemplo, terá um volume limitado de entrada sem tarifa, assim como aves, açúcar, etanol, arroz e outros itens.

O mecanismo é espelhado quando o fluxo se inverte. Produtos europeus nos quais o bloco tem forte competitividade, como queijos, também estarão sujeitos a limites quantitativos para acesso ao mercado sul-americano sem imposto.

Para o Brasil, os ganhos tendem a ser mais expressivos do que para os demais países do Mercosul. Além do impacto direto sobre o PIB, o estudo do IPEA projeta aumento de quase 1,5% no investimento e expansão gradual do comércio exterior, com exportações e importações crescendo cerca de 3% até 2040.

Esse efeito, no entanto, não é imediato. O cronograma de cortes tarifários é longo, e os impactos se distribuem ao longo de décadas. As importações devem reagir primeiro, com aceleração mais forte até meados da década de 2030. As exportações, por sua vez, tendem a ganhar tração de forma mais gradual, à medida que as empresas se adaptam às novas condições e ampliam sua presença no mercado europeu.

Um dos principais vetores de ganho está no acesso mais barato a máquinas, equipamentos industriais, insumos químicos e produtos farmacêuticos. A redução desses custos pode elevar a produtividade da economia brasileira, mesmo que implique maior concorrência para produtores locais.

Outro fator relevante é a presença já consolidada de empresas europeias no Brasil. A diminuição de barreiras tende a facilitar operações intra-grupo, ampliar cadeias de fornecedores e estimular novos investimentos, reforçando a integração produtiva entre os dois lados do Atlântico.

No longo prazo, o acordo não elimina desafios estruturais da economia brasileira, nem garante ganhos automáticos. Mas cria um ambiente mais previsível, integrado e competitivo. Em um mundo cada vez mais fragmentado por disputas comerciais e barreiras geopolíticas, a abertura negociada pode se tornar uma das ferramentas mais consistentes para sustentar crescimento, investimento e geração de riqueza ao longo do tempo.