O clima entre investidores mudou rapidamente. Após semanas de otimismo e recordes no Ibovespa, a sinalização de uma tarifa-base de 50% dos Estados Unidos sobre todas as importações vindas do Brasil, proposta por Donald Trump, devolveu a incerteza ao radar — e acendeu alertas sobre os desdobramentos para as empresas listadas na bolsa brasileira.
O anúncio, feito no fim da tarde da última quarta-feira (9), prevê entrada em vigor a partir de 1º de agosto e atinge o segundo maior parceiro comercial do Brasil, responsável por cerca de 12% das exportações e 15% das importações brasileiras, o equivalente a US$ 40,3 bilhões em 2024, segundo dados compilados pela XP Investimentos.
Embora o peso das exportações brasileiras para os EUA represente aproximadamente 1,9% do PIB, o impacto pode ser concentrado em setores com presença significativa naquele mercado.
Exportadoras no foco: o que está na mesa
Empresas como Embraer (EMBR3), Suzano (SUZB3) e Tupy (TUPY3) aparecem entre as mais expostas ao mercado norte-americano. Na indústria, nomes como Mahle Metal Leve (LEVE3) e WEG (WEGE3) também mantêm uma parcela relevante das receitas ligadas aos EUA — de 6% a 13%, segundo os analistas.
No setor de papel e celulose, a Suzano lidera em exposição, com 16% das receitas originadas no mercado americano, enquanto a Klabin (KLBN11) aparece com menos de 2%. Frigoríficos como JBS (JBSS3) e Minerva (BEEF3), com operações ativas nos EUA, também entram na lista de monitoramento.
Entre as siderúrgicas, o impacto tende a ser limitado: parte das tarifas já está em vigor e o volume de exportação para os EUA é relativamente baixo. A Vale (VALE3), por exemplo, tem menos de 1% das receitas expostas ao país.
Efeitos indiretos e caminhos alternativos
Mesmo entre empresas menos diretamente afetadas, os efeitos secundários ainda são relevantes. A depender da resposta do governo brasileiro, o mercado avalia riscos de retaliação comercial, o que poderia pressionar setores que dependem de importações americanas — como o de geração de energia e bens de capital. Nesse cenário, custos de produção podem subir, assim como a inflação doméstica.
O setor de Óleo e Gás, embora com presença relevante nas exportações para os EUA, pode encontrar alternativas de redirecionamento. Por outro lado, empresas como a Braskem (BRKM5) poderiam se beneficiar indiretamente com uma eventual redução da concorrência nas resinas plásticas importadas.
A volatilidade no câmbio, mudanças nos fluxos de capital estrangeiro e eventuais impactos sobre as expectativas para o PIB também entraram no radar de analistas — especialmente em um ano que já se desenha desafiador no campo político e geopolítico.
Impactos são variados — e o momento pede atenção
Ainda não há consenso sobre a extensão do impacto. Se o anúncio final mantiver a exclusão dos setores de aço e alumínio, o efeito direto seria reduzido em cerca de 20%, segundo cálculos da XP.
A incerteza, no entanto, segue elevada. Mesmo que as tarifas sejam postas em prática, parte das exportações — especialmente de commodities — pode ser redirecionada. E empresas com maior diversificação geográfica e de produtos tendem a enfrentar o cenário com mais resiliência.
Nos bastidores, negociações seguem abertas. Mas o tom adotado por Trump na carta ao governo brasileiro, classificando o país como “beneficiário injusto” do comércio bilateral, indica que o caminho até um entendimento pode não ser dos mais simples.