A relação entre o Brasil e a China sempre foi medida em contêineres. Mas, nos últimos anos, o eixo da parceria mudou de direção. Não se trata mais apenas de exportar soja e minério de ferro — agora, as mineradoras chinesas estão extraindo o minério aqui mesmo.
O movimento é profundo e silencioso: companhias chinesas já controlam cerca de 30% da produção nacional de nióbio e estanho, e estão prestes a alcançar metade da extração de níquel. Também avançam sobre o lítio e o cobre — os metais estratégicos da transição energética.
De acordo com dados oficiais, os investimentos diretos da China no Brasil somaram US$ 4,2 bilhões em 2024, o maior volume desde 2021. Mais da metade desse montante foi destinado a setores considerados críticos — energia elétrica, petróleo, infraestrutura e mineração.
A nova onda de capital chinês não é casual. Ela reflete uma estratégia global que mistura autossuficiência, segurança de insumos e domínio tecnológico, num tabuleiro que envolve não apenas economia, mas também poder.
Níquel: o metal da autonomia energética
A compra da mina de Barro Alto (GO) pela MMG, subsidiária da China Minmetals, foi o marco mais recente. O negócio, ainda sob análise do Cade, pode garantir à China o controle de 50% da produção brasileira de níquel.
Mais do que uma transação industrial, trata-se de uma peça-chave na cadeia global das baterias elétricas. O níquel é essencial para aumentar a densidade energética das baterias de lítio — e como 75% dessas baterias são produzidas na China, o movimento reforça o domínio chinês sobre toda a cadeia, do subsolo brasileiro às fábricas asiáticas.
Lítio: o novo petróleo da era verde
O interesse chinês também avança sobre o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais — agora conhecido como “Vale do Lítio”.
A BYD, gigante dos veículos elétricos, criou uma subsidiária no Brasil para atuar diretamente na exploração mineral e mantém conversas para ampliar sua presença na região.
O objetivo é claro: garantir o fornecimento do mineral que alimenta os motores da nova indústria automobilística — não só comprando carros, mas controlando as minas que os fazem possíveis.
Nióbio e estanho: os metais estratégicos
Em Araxá (MG), a CBMM concentra 85% da produção mundial de nióbio, e 15% da empresa pertencem a um consórcio de grupos chineses desde 2011. O restante da produção nacional está em mãos de estatais chinesas como a CMOC e a CNMC, o que significa que um terço de todo o nióbio brasileiro já está sob controle chinês.
No caso do estanho, usado em soldas eletrônicas e semicondutores, a influência é ainda mais direta: a Taboca, dona da mina de Pitinga (AM) e responsável por 30% da extração nacional, foi comprada por uma mineradora chinesa em 2024.
Esses metais são discretos, mas fundamentais para a indústria de defesa, tecnologia e energia limpa — exatamente as áreas em que Pequim busca reduzir dependências externas.
O próximo alvo: o minério de ferro
Curiosamente, o único pilar ainda não controlado por empresas chinesas é o minério de ferro — embora 70% das exportações brasileiras do minério já tenham como destino a China.
Mas o jogo está mudando. A montadora Geely, dona da Volvo, deve entrar na mineração com o projeto Bloco-8, em Minas Gerais, capaz de produzir 27 milhões de toneladas anuais de minério de alta pureza.
A estratégia é clara: verticalizar a cadeia, do minério que vira aço ao carro elétrico que consome esse aço.
Muito além da mineração
Os investimentos chineses no subsolo brasileiro não se resumem a recursos naturais — são parte de uma política industrial global.
O que começou como uma busca por autossuficiência se transformou em capitalismo de Estado estratégico, no qual cada aquisição reforça o ecossistema econômico da China.
No Brasil, essa expansão redefine relações de dependência e cria um dilema geopolítico: o país precisa do capital e da tecnologia chinesa, mas arrisca concentrar seus recursos estratégicos sob o mesmo controle estrangeiro.
O mapa das commodities brasileiras, antes traçado em blocos comerciais, agora é redesenhado com as digitais da nova potência que aprende rápido — e escava fundo.