A valorização excepcional do ouro em 2025 — mais de 60% no ano e 155% na última década — mudou a dinâmica global do setor de mineração e recolocou o Brasil no radar de grandes companhias. Embora o país responda por apenas 2% da produção mundial, concentra cerca de 4% das reservas conhecidas, estimadas em 2,4 mil toneladas.

Com o metal atingindo patamares recordes, o ambiente econômico passou a favorecer projetos antes considerados de baixa viabilidade. Isso se refletiu rapidamente nos planos de investimento. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) revisou sua projeção para o quadriênio 2024–2028: de US$ 1,4 bilhão para US$ 2,1 bilhões. O salto de quase 40% é o segundo maior entre todas as commodities, atrás apenas das terras raras.

Um setor pequeno, mas com potencial de expansão

O Brasil produziu 84 toneladas de ouro em 2024, 15ª posição no ranking global. O número é modesto, mas o país possui espaço para crescer, especialmente em regiões onde o subsolo já mostrou histórico de produtividade, como Minas Gerais e Goiás.

Ainda assim, mineração de ouro não reage de forma imediata a ciclos de alta. Projetos demandam tecnologia, processos longos de sondagem, licenciamento e estruturas robustas de operação. Por isso, mesmo com o rali recente, a produção global cresceu apenas 2% entre 2024 e 2025.

A AngloGold ilustra o novo momento

A AngloGold Ashanti, uma das maiores produtoras do país e a mais antiga em operação contínua (desde 1834), vive um ciclo de reforço operacional. A empresa opera a mina mais profunda do Brasil, no complexo Cuiabá (Caeté e Sabará), e ampliou investimentos após identificar mineralização economicamente viável em profundidades superiores a 2,4 km.

A valorização do metal fortaleceu o caixa das mineradoras: o Ebitda global da AngloGold dobrou no terceiro trimestre de 2025, comportamento observado também em concorrentes internacionais.

Reorganização do mercado brasileiro

A movimentação recente reforça uma tendência típica da indústria: a venda de ativos maduros para empresas menores, que operam com estruturas mais enxutas. Em 2025, a AngloGold vendeu a Mineração Serra Grande (GO) para a canadense Aura Minerals por US$ 76 milhões mais royalties. O ativo, com três minas subterrâneas e uma operação a céu aberto, produziu 2,5 toneladas de ouro em 2024.

O negócio mostra como o setor vem sendo reconfigurado: empresas globais priorizam áreas de maior escala e deixaram espaço para players médios expandirem presença local.

O desafio brasileiro

Apesar do aumento de investimentos, o Brasil ainda opera abaixo do seu potencial geológico. A alta do ouro cria um ambiente mais favorável, mas não resolve obstáculos estruturais: licenciamento lento, gargalos logísticos, insegurança fundiária e custos operacionais elevados.

Se esses pontos não avançarem, a valorização do metal tende a gerar apenas ajustes marginais na produção. Mas se houver coordenação entre política mineral, infraestrutura e previsibilidade regulatória, o país pode transformar reservas hoje subutilizadas em um ciclo consistente de crescimento do setor.