Enquanto os mercados globais bateram recordes, a inteligência artificial dominou manchetes e o comércio internacional voltou ao centro das tensões geopolíticas, Warren Buffett passou 2025 fazendo exatamente o que sempre fez melhor: esperando.
No último ano à frente da Berkshire Hathaway, o investidor mais famoso do mundo manteve uma postura deliberadamente conservadora. Com ativos caros e poucas oportunidades que atendessem aos seus critérios históricos, a companhia vendeu mais ações do que comprou, reforçou o caixa e evitou grandes movimentos transformacionais.
Foi um encerramento coerente com seis décadas de filosofia de investimento baseada em paciência, disciplina e aversão a riscos desnecessários.
A exceção mais relevante ficou por conta da aquisição integral da OxyChem, braço petroquímico da Occidental Petroleum, em um negócio de cerca de US$ 10 bilhões pago à vista. A transação seguiu o padrão clássico da Berkshire: uma empresa sólida, pressionada por endividamento, negociada em condições favoráveis graças à capacidade da holding de oferecer liquidez imediata.
Fora isso, o ano foi marcado mais por ajustes do que por expansões. A Berkshire reduziu posições relevantes, inclusive em ações de tecnologia, num momento em que o entusiasmo com o setor voltava a levantar alertas sobre avaliações excessivas. Parte da participação na Apple foi vendida ao longo do ano, mesmo com o papel ainda acumulando ganhos, reforçando a leitura de que o preço já embutia expectativas elevadas demais para o perfil da companhia.
Ao mesmo tempo, Buffett manteve distância de movimentos corporativos que movimentaram outros setores tradicionais. Mesmo com especulações sobre uma nova rodada de consolidação ferroviária nos Estados Unidos, a Berkshire não buscou aquisições no segmento e preferiu acordos operacionais pontuais a uma expansão via fusões.
O traço mais marcante do ano, no entanto, foi fora do balanço. Em maio, durante a tradicional assembleia anual em Omaha, Buffett anunciou que deixaria o cargo de CEO ao fim de 2025, encerrando formalmente uma das mais longas e bem-sucedidas lideranças da história corporativa americana. A sucessão ficará a cargo de Greg Abel, executivo que já vinha assumindo responsabilidades operacionais nos últimos anos.
Após o anúncio, Buffett reduziu sua exposição pública. Em cartas e aparições posteriores, passou a dividir espaço com o sucessor e deixou claro que sua atuação seria mais discreta. Ainda assim, continuou acompanhando de perto os negócios da Berkshire até o fim do mandato.
A transição coincidiu com um momento de retração interna. As ações da Berkshire recuaram após o anúncio da saída, executivos históricos começaram a se despedir da companhia e o mercado passou a precificar um futuro sem a figura central que, por décadas, funcionou como âncora de credibilidade e disciplina.
Mesmo assim, a estrutura deixada por Buffett é robusta. Em 2025, o caixa da Berkshire alcançou um nível recorde, ultrapassando US$ 350 bilhões. A empresa foi vendedora líquida de ações pelo terceiro ano consecutivo, reforçando a capacidade de atravessar períodos de estresse financeiro e aproveitar oportunidades quando os preços voltarem a níveis mais atraentes.
Questionado sobre a razão de manter tanto capital parado, Buffett foi fiel ao próprio histórico: oportunidades não seguem calendário. Elas surgem quando menos se espera e, quando surgem, é melhor estar preparado.
Esse foi, afinal, o tom de sua despedida prática da gestão. Sem movimentos espetaculares, sem apostas tardias para marcar época. Apenas a reafirmação de um método que resistiu a bolhas, crises, modas tecnológicas e ciclos econômicos inteiros.
Buffett sai como entrou: com dinheiro em caixa, convicção intacta e a certeza de que, no longo prazo, não fazer nada também é uma decisão de investimento.