A mais recente paralisação do governo dos Estados Unidos colocou o Federal Reserve em uma posição desconfortável: o banco central pode ter que tomar suas próximas decisões de política monetária sem os dados que normalmente orientam seus movimentos.
Com o orçamento travado no Congresso, o Departamento de Estatísticas do Trabalho confirmou que não divulgará o relatório de empregos previsto para esta sexta-feira — um dos principais termômetros da economia americana. Outros indicadores cruciais, como o índice de preços ao consumidor, também correm risco de atraso, a depender da duração do shutdown.
O impasse chega em um momento sensível. O Fed acaba de retomar os cortes de juros, reduzindo a taxa básica para o intervalo de 4% a 4,25%, e precisa calibrar a velocidade do ciclo de afrouxamento.
Sem dados, a bússola estatística que guia as decisões do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) perde o norte.
“É doloroso não receber estatísticas oficiais justamente quando estamos tentando entender se a economia está em transição”, disse Austan Goolsbee, presidente do Fed de Chicago.
Entre o risco da inflação e o medo do desemprego
A dúvida que divide os formuladores de política é até que ponto os juros atuais estão realmente restringindo a economia.
Se estiverem atuando com força, um corte mais rápido poderia aliviar o mercado de trabalho. Mas, se o aperto for menor do que se imagina, reduções aceleradas podem reacender pressões inflacionárias — especialmente em meio às novas tarifas comerciais impostas pelo governo Trump.
Stephen Stanley, economista-chefe do Santander nos EUA, resume o dilema:
“Há um enorme desacordo sobre onde está o nível neutro da taxa de juros. É possível entender por que alguns têm pressa e outros não.”
Economistas estimam que cada semana de shutdown pode subtrair 0,1 ponto percentual do PIB trimestral, adicionando incerteza a uma economia que já mostra sinais mistos: crescimento moderado, inflação ainda acima da meta e desemprego estável em 4,3%.
O novo dissenso dentro do Fed
Entre as vozes mais ativas do debate está Stephen Miran, novo membro do Conselho de Governadores, que defende cortes mais agressivos — até dois pontos percentuais — para evitar um aumento “desnecessário” do desemprego.
Segundo ele, a taxa neutra estaria próxima de zero, considerando o peso das tarifas, a desaceleração migratória e a desregulamentação em curso.
Outros dirigentes, porém, discordam. Para Vincent Reinhart, ex-economista do Fed e atual estrategista da BNY Investments, “o consumo segue resiliente, e isso indica que a taxa neutra não pode ser tão baixa quanto Miran supõe”.
Essa divergência interna — que já vinha crescendo — se intensifica com o apagão de dados. Sem informações oficiais, os dirigentes terão de se apoiar em estimativas privadas e big data, instrumentos úteis, mas menos confiáveis para medir o pulso real da economia americana.
Um Fed em voo cego
Antes da paralisação, Jerome Powell havia reiterado que a estratégia de cortes graduais fazia parte de uma “gestão de riscos” para suavizar a desaceleração, enquanto aguardava confirmação de que o impacto das tarifas seria temporário.
Agora, a incerteza é dupla: sem dados e com ruído político crescente, o Fed pode se ver forçado a agir com prudência extrema — mesmo que o preço seja um aperto maior sobre o emprego.