Uma nova corrida energética está em curso nos Estados Unidos — e a energia nuclear voltou ao centro da estratégia. Em meio à explosão da inteligência artificial e à crescente competição com a China, startups e investidores estão retomando projetos nucleares com apoio de bilhões de dólares em capital privado e um novo entusiasmo do governo americano.

A cidade de Oak Ridge, no Tennessee, símbolo histórico do Projeto Manhattan, abriga hoje a Standard Nuclear, uma startup que trabalha para desenvolver um novo tipo de combustível — mais seguro, eficiente e resistente a acidentes. Mesmo sem garantias financeiras, mais de 40 funcionários passaram meses trabalhando sem remuneração, movidos pela crença de que estão diante de um ponto de virada energético.

O pano de fundo: com a IA exigindo volumes cada vez maiores de eletricidade, e com pressões geopolíticas para reduzir a dependência energética externa (especialmente da Rússia e da China), o setor nuclear americano ganhou novo fôlego.

Apoio bilionário e urgência estratégica
Desde 2021, investidores como Peter Thiel, Sam Altman (OpenAI) e Bill Gates colocaram mais de US$ 2,5 bilhões em startups nucleares — algo impensável até poucos anos atrás. O próprio presidente Trump endossou o movimento, assinando em maio quatro ordens executivas para acelerar a adoção de reatores pequenos e modulares (SMRs).

O Departamento de Defesa também entrou no jogo: quer instalar microrreatores em bases militares e locais estratégicos como o Ártico. E as gigantes da tecnologia, como Microsoft e Meta, passaram a investir em reatores antigos e na revitalização de usinas inativas, buscando garantir energia limpa e contínua para seus data centers.

Desafios e promessas
Apesar do otimismo, o setor nuclear americano ainda enfrenta obstáculos grandes. A produção doméstica de urânio é escassa, a regulação é pesada e os custos de construção seguem altos. A Rússia, sozinha, ainda controla cerca de 25% do mercado de urânio enriquecido consumido nos EUA — uma dependência que Washington quer eliminar até 2028.

A Standard Nuclear aposta no chamado combustível “triso” — pequenas esferas de urânio encapsuladas com materiais resistentes a vazamentos. Já vendeu toda sua produção até boa parte de 2027, mas sua sobrevivência até pouco tempo dependia de doações pessoais de seus próprios colaboradores.

“Você entra no carro todo dia sabendo que não vai receber salário”, disse o CEO Kurt Terrani. Mesmo assim, os funcionários permaneceram. Um deles chegou a vender parte do terreno onde morava para financiar o próprio trabalho. O alívio só veio no Natal, com um investimento de US$ 42 milhões de um fundo de risco especializado em inovação militar.

Corrida contra o tempo
Enquanto os EUA enfrentam gargalos, a China avança com mais de 30 reatores em construção e uma meta de erguer 40 novos nos próximos dez anos. Segundo analistas, é provável que os chineses superem os americanos em produção nuclear já nos próximos cinco anos.

Para especialistas, o momento é crítico. A energia nuclear — limpa, densa e confiável — pode ser a única solução viável para alimentar o futuro digital. E, agora, o setor privado parece disposto a bancar a retomada, mesmo diante dos riscos e incertezas.

“A alternativa é ficar para trás”, resume Terrani. “E não temos esse luxo.”