As companhias aéreas dos Estados Unidos estão prestes a enfrentar mais do que céus nublados: analistas preveem que, ao divulgar os resultados do primeiro trimestre, o setor deve cortar as projeções para 2025 diante de uma combinação preocupante de fatores — desde tarifas globais até a perda de fôlego na demanda por viagens.
Delta, American e Southwest já reduziram suas expectativas para o primeiro semestre. Agora, com o início da temporada de balanços, espera-se que as perspectivas anuais também sofram ajustes. A Delta será a primeira a divulgar seus resultados nesta quarta-feira, antes da abertura do mercado.
A justificativa? Uma série de sinais que, embora ainda não confirmem uma crise no setor, levantam sérias dúvidas sobre o ritmo de crescimento daqui para frente.
Da euforia ao freio gradual
Nos últimos anos, o setor aéreo se beneficiou de um fenômeno claro: o desejo dos consumidores de priorizarem experiências — como viagens — acima de bens materiais, mesmo com inflação elevada e juros em alta. Esse movimento sustentou os lucros de grandes companhias, que viram uma explosão de viagens internacionais e executivas desde 2022.
Mas esse comportamento está mudando. “As coisas claramente estão mais fracas do que em janeiro”, afirmou a analista Savanthi Syth, da Raymond James, à CNBC. A queda nas reservas corporativas e de lazer levou a Delta a cortar previsões já no mês passado, algo que foi seguido por suas concorrentes diretas.
O impacto das políticas de Trump e o isolamento econômico
Com a volta de Donald Trump ao poder, uma nova rodada de tarifas comerciais foi implementada, afetando diretamente as rotas internacionais. A mais recente inclui impostos mínimos de 10% sobre importações globais, o que aumentou o custo de operação para muitas companhias e elevou a cautela em relação a viagens internacionais.
Além disso, as demissões em massa no setor público e cortes de gastos em contratos governamentais impactaram diretamente receitas consideradas estáveis, como as viagens a trabalho pagas por agências federais. Companhias como a Deloitte, que são grandes contratantes de viagens corporativas, também vêm enxugando suas operações.
Uma queda que vai além dos números
As ações das companhias aéreas despencaram em 2025. Delta acumula queda superior a 38%, American Airlines mais de 45%, e a United cerca de 40% no ano. A fragilidade do setor reflete não apenas os fundamentos, mas também a mudança de humor em Wall Street.
“Embora o nível de desvalorização das ações seja mais severo do que a realidade atual, isso não significa que a realidade não vá se alinhar a esse pessimismo nos próximos meses”, alertou Syth.
Europa em queda, Canadá em alerta
As reservas para voos entre Estados Unidos e Europa entre junho e agosto caíram 13% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados da Cirium. Ainda que o levantamento não inclua vendas diretas em sites das companhias, já serve como alerta para a desaceleração na temporada de verão, historicamente uma das mais lucrativas.
O tráfego vindo do Canadá também está em baixa, e parte disso pode ser atribuído à alta do dólar, que desincentiva o turismo para os EUA.
Classe premium ainda segura — por enquanto
Apesar das incertezas, o segmento premium segue resiliente. Passageiros de alta renda continuam ocupando os assentos da frente dos aviões, mas analistas já questionam se essa demanda conseguirá sustentar as margens no longo prazo. “As cabines vão estar cheias, mas qual será o yield?”, questiona Syth. Uma possível saída pode ser o uso estratégico de milhas e pontos para manter o volume, mesmo que com menor retorno por bilhete.